O médico a examina, faz cara feia, torce o nariz e aponta para a cadeira. Ela coloca o sapato e senta de frente para o médico de cara severa.
- Acho importante você se preocupar menos. Está ficando complicado.
- Mas Doutor, não aprendi a não me preocupar.
- Mas então está na hora de começar mocinha. Nunca é tarde...
- Ok... alguma dica de como começar?
- Tenho uma lista delas!
Ela abre a bolsa, tira um caderno listrado, fechado com um elástico vermelho. Junto vem uma caneta vermelha, do escritório onde ela trabalha.
- Tenho caneta e papel...
- Um bom livro pode ser um começo. Uma viagem para qualquer lugar.
- Isso eu já faço doutor... Viajar, ler...
- Mas não é só viajar e ler. É viajar e ler prestando atenção apenas àquilo. Você pode tentar da próxima vez. Abster-se!
- Tá bom Doutor... Mais alguma dica, caso isso não funcionem?
- Um filme também pode ser bom. Até mesmo, sofá, televisão, pipoca e coberta.
- Gosto de filmes, tv, sofá e pipoca...- o sorriso de esperança some e ela pergunta - Mas se faltar tempo Doutor?
- Tempo tem que arrumar mocinha. Trabalho ou saúde?
- É... você tem razão. Mas ainda assim... Isso é difícil Doutor... Não há nenhum botão “desligar”? Uma alavanca de “preocupações off”?
- Uma mulher de 20 e poucos anos não deve ter tanto com o que se preocupar.
- Ah... sabe que tem, viu? Não tem mesmo um botãozinho?
- Não... Mas você pode tentar os amigos, eles sempre sabem nos ajudar a abster das preocupações.
- (Suspiro) Ok... Mais alguma recomendação?
- Despreocupar-se mocinha... Despreocupar-se! Sua vida não aguenta tanto stress, entendeu? Ou você quer chegar aos 30 com cara de 40?
- Entendi! 30 com cara de 40 ninguém merece!!! Na marra eu aprendo, ok?
Ela sorri um sorriso meio amarelo, meio pensativo e levanta. O médico a acompanha até a saída do consultório, abre a porta e fala bem baixinho:
- E se nada adiantar, uma boa garrafa de vinho deve resolver.
domingo, 3 de abril de 2011
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
Luto
Solto minha mão ao lado da cama e procuro o óculos de grau deixado ali antes de dormir. Sento na cama, sinto o frio da madeira nos meus pés. Cabeça lateja pelas cervejas da noite anterior. Olhos inchados, maquiagem borrada e cabelo desarrumado. Ando até o banheiro. O chão é agora mais frio, é a cerâmica. Ligo o chuveiro e, enquanto a água esquenta, me olho no espelho.
Vi o vestido jogado cesto de roupa suja. Usei meu vestido de renda. Achei que causaria boa impressão. E um salto, pois sempre nos deixa mais confiantes. Lembrei que bebi Original. Vi um resquício de batom vermelho nos lábios. O cinto preto que usei para marcar a cintura estava logo ao lado do sapato, ambos jogados no chão. Olhei para minhas mãos e o esmalte estava descascado. Senti um aperto no peito.
Entrei no chuveiro e quando me dei conta estava aos prantos. Era um choro de luto. Sensação de que enterrei alguma coisa importante. Uma dor na boca do estômago. Uma dor que me fez sentar embaixo do chuveiro deixar as gotas caírem por todas as minhas costas. Lavar toda angustia que sentia. Estava de luto e isso doía.
Lembro então que matei o que quis quando passei porta a fora do bar. Desliguei o celular e fui pra casa. Estado de choque. Deve ser comum quando alguma coisa morre. Morreu a esperança que você percebesse que podia dar certo. Enterrei a idéia. Matei a vontade de tentar, a tiros. Sufoquei o gostar e afoguei o tesão.
Senti raiva. E então levantei do chão, lavei meu corpo, meu cabelo, lavei meu rosto com força para tirar toda a maquiagem. Parei de chorar.
Sai, me enxuguei, coloquei minha lente de contato, escovei os dentes, passei protetor solar no rosto, penteei o cabelo, vesti um shorts e uma camiseta e fiquei com uma única certeza: a dor passa e as chances que o tempo dá também. Eu aproveitarei as minhas. E você?
Vi o vestido jogado cesto de roupa suja. Usei meu vestido de renda. Achei que causaria boa impressão. E um salto, pois sempre nos deixa mais confiantes. Lembrei que bebi Original. Vi um resquício de batom vermelho nos lábios. O cinto preto que usei para marcar a cintura estava logo ao lado do sapato, ambos jogados no chão. Olhei para minhas mãos e o esmalte estava descascado. Senti um aperto no peito.
Entrei no chuveiro e quando me dei conta estava aos prantos. Era um choro de luto. Sensação de que enterrei alguma coisa importante. Uma dor na boca do estômago. Uma dor que me fez sentar embaixo do chuveiro deixar as gotas caírem por todas as minhas costas. Lavar toda angustia que sentia. Estava de luto e isso doía.
Lembro então que matei o que quis quando passei porta a fora do bar. Desliguei o celular e fui pra casa. Estado de choque. Deve ser comum quando alguma coisa morre. Morreu a esperança que você percebesse que podia dar certo. Enterrei a idéia. Matei a vontade de tentar, a tiros. Sufoquei o gostar e afoguei o tesão.
Senti raiva. E então levantei do chão, lavei meu corpo, meu cabelo, lavei meu rosto com força para tirar toda a maquiagem. Parei de chorar.
Sai, me enxuguei, coloquei minha lente de contato, escovei os dentes, passei protetor solar no rosto, penteei o cabelo, vesti um shorts e uma camiseta e fiquei com uma única certeza: a dor passa e as chances que o tempo dá também. Eu aproveitarei as minhas. E você?
domingo, 23 de janeiro de 2011
Cardápio
- Bom dia! Tudo bem?
- Tudo em ordem! E a senhorita?
- Tudo bem também! Me diga uma coisa, o que tem de bom hoje?
- Hoje eu recomendo o Recalque viu? Tá saindo super bem!
- É mesmo? Não gosto muito não... Não vi Atitude no cardápio... Não tem?
- Ah moça, é que a atitude tá vindo ruim, viu? Tão feia e tão pouquinha que não dá nem para um caldo...
- Ai que pena... Atitude que vocês servem aqui é sempre muito boa.
- É... O pessoal tem reclamado, mas parece que Atitude tá acabando no mercado...
- Mas além do Recalque, o que mais você recomenda?
- Hoje a Mentira tá bem bonita e a Fugacidade também tá bem gostosa...
- Hum... Honestidade também não tem?
- A gente tirou do cardápio... tava saindo muito pouco...
- Ai... quer saber, me dá uma porção de sossego então.
- Alguma bebida p/ acompanhar?
- Uma dose de paciência, por favor.
- Tudo em ordem! E a senhorita?
- Tudo bem também! Me diga uma coisa, o que tem de bom hoje?
- Hoje eu recomendo o Recalque viu? Tá saindo super bem!
- É mesmo? Não gosto muito não... Não vi Atitude no cardápio... Não tem?
- Ah moça, é que a atitude tá vindo ruim, viu? Tão feia e tão pouquinha que não dá nem para um caldo...
- Ai que pena... Atitude que vocês servem aqui é sempre muito boa.
- É... O pessoal tem reclamado, mas parece que Atitude tá acabando no mercado...
- Mas além do Recalque, o que mais você recomenda?
- Hoje a Mentira tá bem bonita e a Fugacidade também tá bem gostosa...
- Hum... Honestidade também não tem?
- A gente tirou do cardápio... tava saindo muito pouco...
- Ai... quer saber, me dá uma porção de sossego então.
- Alguma bebida p/ acompanhar?
- Uma dose de paciência, por favor.
terça-feira, 4 de janeiro de 2011
Amar la trama
Esses dias parei para pensar no que no que eu queria para 2011. A resposta veio na viagem de ida para a Ilha do Mel.
Ouvi no trajeto o último CD do Jorge Drexler. Entre todas as músicas do álbum, tenho duas favoritas, uma delas é “La trama y el desenlace”. O tema é um casal que anda com as mãos nas respectivas cinturas e a sincronia destes dois amantes. Um passeio simples, uma trama, um enredo, que pode antecipar qualquer coisa. Beijo, sexo e/ou até uma briga. O que quer que venha depois.
E conclui que o que quero para 2011 são enredos, tramas, mais que fim das coisas. A ansiedade, o frio na barriga, o desenrolar, as etapas que antecipam os fins. E confesso que não quero isso só no amor não. O tesão da vida, na minha opinião, está em conquistar e aproveitar cada segundo que antecede.
Por isso, tomo como minhas as palavras do meu uruguaio favorito: amar la trama más que al desenlace. Minha meta e meus votos para esse ano que começa.
Ouvi no trajeto o último CD do Jorge Drexler. Entre todas as músicas do álbum, tenho duas favoritas, uma delas é “La trama y el desenlace”. O tema é um casal que anda com as mãos nas respectivas cinturas e a sincronia destes dois amantes. Um passeio simples, uma trama, um enredo, que pode antecipar qualquer coisa. Beijo, sexo e/ou até uma briga. O que quer que venha depois.
E conclui que o que quero para 2011 são enredos, tramas, mais que fim das coisas. A ansiedade, o frio na barriga, o desenrolar, as etapas que antecipam os fins. E confesso que não quero isso só no amor não. O tesão da vida, na minha opinião, está em conquistar e aproveitar cada segundo que antecede.
Por isso, tomo como minhas as palavras do meu uruguaio favorito: amar la trama más que al desenlace. Minha meta e meus votos para esse ano que começa.
domingo, 5 de dezembro de 2010
Sobre família
Primeira taça de vinho. Crepe de strogonoff.
Sempre gostei de pessoas com comentários ácidos. Pessoas com humor negro. Até um pouco de cinismo. Por isso escolhi aquela mesa. Dois casais. Um primo, uma prima e seus respectivos cônjuges. A conversa girava em torno de um recém-chegado na família cujo gosto pelo trabalho não era uma de suas qualidades. Eu, como ainda não conheço sujeito, não pude opinar. Apenas ouvi os apelidos e as histórias sobre o moço. Família tem dessas coisas – pelo menos a minha - exige dos recém-chegados os comportamentos da maioria da família. Sendo um pouco diferente a aceitação fica mais complicada (às vezes até impossível).
Segundo crepe. Quatro queijos.
O assunto agora girava em torno do primo que acabara de chegar à mesa. Uma das pessoas mais engraçadas que conheço. Melhor, o assunto era sobre ele e seu gosto duvidoso por bebidas. Assunto este que nos fez inclusive questionar sua masculinidade. Disseram: “caipirinha de morango com saquê é bebida de travesti”. Ri. Quis acrescentar que só faltava dizer que preferia com adoçante. Preferi apenas rir.
Segunda taça de vinho. Uma parada estratégica em outra mesa para um beijo na careca do meu pai e um cheiro na minha mãe. Terceiro crepe. Camarão.
A esta altura o assunto passou a ser trabalho. Vendas dos empreendimentos, velocidade de vendas e coisas de uma família que trabalha com mercado imobiliário. Passamos pelas férias que serão curtas em virtude da quantidade de negócios a acontecer. Para onde iremos no ano novo e o que cada família irá fazer com o pouco tempo que cada um terá. Planos para a festa de natal. Neste momento as crianças acabaram de comer. Me olharam e sorriram com aquela inocência e ansiedade que só crianças tem e me intimaram a brincar. Negociei: “termino a taça de vinho e em seguida vou”. O menino saiu. As duas meninas contavam os goles e comemoravam cada vez que o fim ficava mais próximo. Lá fui eu. Veio logo atrás a minha sobrinha que decidira brincar junto. Junta a criança no colo, corre atrás de uma, corre atrás de outra, ajeita a criança no colo, sobe escada, desce escada, ajeita a criança no colo, passa embaixo da mesa, faz cócegas em um, beija e aperta o outro. “Janaina deveria abrir uma creche”. Não, não deveria não.
Terceira taça de vinho, um copo d’água e o último crepe. Repeti o de camarão.
Sentei novamente na mesa. Cansada e ofegante. Já tinha aumentado o número de pessoas sentadas por ali. A tia que havia ficado sozinha em uma mesa próxima veio ficar perto. Minha irmã também apareceu e mais um primo que chegara tarde, pois sua loja fecha após as 21 horas. O assunto já havia dispersado. A cada três o assunto era diferente. Uns falavam de trabalho, outros dos filhos e a escola que irão no próximo ano, outros das mudanças que o ano havia implicado na vida. Todos com um ar de ano terminando. Alguns começam a ir embora. A sobrinha vem para meu colo chupando um pirulito azul. A criança era puro açúcar e vira o assunto de todos por uns minutos. A atenção dispersa mais uma vez. Ela vai embora com a minha mãe e depois de uns minutos vou embora com meu pai para deixar minha irmã na casa dela.
Um copo d’água. Antes de dormir.
O vinho me deu um sono gostoso e tudo que desejei no carro era minha cama. Cheguei, dei um último beijo da minha sobrinha que já dormia. Bebi um copo d’água e fui deitar. A sensação era incrível. Não só pela moleza do vinho, mas pela delícia de noite. Pensei: “minha família é foda”. Dormi. Um sono pesado, profundo.
Sempre gostei de pessoas com comentários ácidos. Pessoas com humor negro. Até um pouco de cinismo. Por isso escolhi aquela mesa. Dois casais. Um primo, uma prima e seus respectivos cônjuges. A conversa girava em torno de um recém-chegado na família cujo gosto pelo trabalho não era uma de suas qualidades. Eu, como ainda não conheço sujeito, não pude opinar. Apenas ouvi os apelidos e as histórias sobre o moço. Família tem dessas coisas – pelo menos a minha - exige dos recém-chegados os comportamentos da maioria da família. Sendo um pouco diferente a aceitação fica mais complicada (às vezes até impossível).
Segundo crepe. Quatro queijos.
O assunto agora girava em torno do primo que acabara de chegar à mesa. Uma das pessoas mais engraçadas que conheço. Melhor, o assunto era sobre ele e seu gosto duvidoso por bebidas. Assunto este que nos fez inclusive questionar sua masculinidade. Disseram: “caipirinha de morango com saquê é bebida de travesti”. Ri. Quis acrescentar que só faltava dizer que preferia com adoçante. Preferi apenas rir.
Segunda taça de vinho. Uma parada estratégica em outra mesa para um beijo na careca do meu pai e um cheiro na minha mãe. Terceiro crepe. Camarão.
A esta altura o assunto passou a ser trabalho. Vendas dos empreendimentos, velocidade de vendas e coisas de uma família que trabalha com mercado imobiliário. Passamos pelas férias que serão curtas em virtude da quantidade de negócios a acontecer. Para onde iremos no ano novo e o que cada família irá fazer com o pouco tempo que cada um terá. Planos para a festa de natal. Neste momento as crianças acabaram de comer. Me olharam e sorriram com aquela inocência e ansiedade que só crianças tem e me intimaram a brincar. Negociei: “termino a taça de vinho e em seguida vou”. O menino saiu. As duas meninas contavam os goles e comemoravam cada vez que o fim ficava mais próximo. Lá fui eu. Veio logo atrás a minha sobrinha que decidira brincar junto. Junta a criança no colo, corre atrás de uma, corre atrás de outra, ajeita a criança no colo, sobe escada, desce escada, ajeita a criança no colo, passa embaixo da mesa, faz cócegas em um, beija e aperta o outro. “Janaina deveria abrir uma creche”. Não, não deveria não.
Terceira taça de vinho, um copo d’água e o último crepe. Repeti o de camarão.
Sentei novamente na mesa. Cansada e ofegante. Já tinha aumentado o número de pessoas sentadas por ali. A tia que havia ficado sozinha em uma mesa próxima veio ficar perto. Minha irmã também apareceu e mais um primo que chegara tarde, pois sua loja fecha após as 21 horas. O assunto já havia dispersado. A cada três o assunto era diferente. Uns falavam de trabalho, outros dos filhos e a escola que irão no próximo ano, outros das mudanças que o ano havia implicado na vida. Todos com um ar de ano terminando. Alguns começam a ir embora. A sobrinha vem para meu colo chupando um pirulito azul. A criança era puro açúcar e vira o assunto de todos por uns minutos. A atenção dispersa mais uma vez. Ela vai embora com a minha mãe e depois de uns minutos vou embora com meu pai para deixar minha irmã na casa dela.
Um copo d’água. Antes de dormir.
O vinho me deu um sono gostoso e tudo que desejei no carro era minha cama. Cheguei, dei um último beijo da minha sobrinha que já dormia. Bebi um copo d’água e fui deitar. A sensação era incrível. Não só pela moleza do vinho, mas pela delícia de noite. Pensei: “minha família é foda”. Dormi. Um sono pesado, profundo.
terça-feira, 9 de novembro de 2010
Desencaixe
Era um fim de semana atípico em Curitiba. Muito sol e muito calor. Estranho, pois Curitiba geralmente não fica feliz quando os fins de semana chegam. Ela fecha a cara, esconde o céu azul com inúmeras nuvens cinza e às vezes ainda resolve molhar o povo da cidade. Como se ela não gostasse de folga de trabalho.
Mas como ia dizendo, era um fim de semana de sol. E, apesar da menina gosta de dias azuis, tudo parecia estar fora do lugar. Naquele sábado parecia que tudo era pequeno de mais, que o sapato apertava, que o povo falava muito e que tudo pesava quinze vezes quilos a mais. Um sábado à tarde com uma constante sensação de desencaixe. De que o mundo não era dela. Talvez pelo sol estranho na cidade cinza ou por coisas que ela deixou de entender.
Mas ela quis sair correndo da praça lotada e gritar no meio da rua. Fazer o tempo parar para que, quem sabe, ela encontrasse outra vez um espaço do tamanho dela, sair dali sem ninguém perceber. Ou então poder fingir ser outra pessoa, dar uma de louca, deitar no meio da grama, tirar a roupa ou ser invisível. Já que não de encaixava ali mesmo, por que não ser realmente excêntrico? Mas a garota é contida.
Conversou com as pessoas, obedeceu quando disseram para ela ficar. Bebeu quando disseram que era para beber e saiu quando disseram que era para sair.
Infelizmente nada daquilo fez sentido. Ela foi dormir.
Domingo veio. Outro dia azul na capital cinzenta. Surgiu o convite para o samba. Como antes, ela foi onde disseram que ela deveria ir. Dessa vez não bebeu quando disseram para beber. Não dançou quando disseram que era para dançar.
Dançou apenas quando ela quis. Comeu e bebeu apenas o que ela quis e quando ela quis. E o mundo aos poucos voltou a fazer sentido. Aqueles rostos tão familiares e tão de sempre fizeram o mundo achar mais uma vez um espaço onde ela coubesse, onde as coisas tivessem o peso real e o sapato tivesse o tamanho certo.
Um sorriso de criança pela manhã, o passeio pela rua, o papo no sofá, a canga na grama no fim da tarde, a bolinha de sabão, a cerveja não tão gelada seguida pela cerveja bem gelada e as conversas com aquelas que faziam falta. O fim de semana acabou e a sensação de desencaixe foi-se embora. A menina se deu conta que ela não gosta de gente, mas gosta sim da sua gente. Da gente de tempos antigos e da gente de novos tempos. Daquela gente que faz o mundo dela ser do jeitinho que é.
Mas como ia dizendo, era um fim de semana de sol. E, apesar da menina gosta de dias azuis, tudo parecia estar fora do lugar. Naquele sábado parecia que tudo era pequeno de mais, que o sapato apertava, que o povo falava muito e que tudo pesava quinze vezes quilos a mais. Um sábado à tarde com uma constante sensação de desencaixe. De que o mundo não era dela. Talvez pelo sol estranho na cidade cinza ou por coisas que ela deixou de entender.
Mas ela quis sair correndo da praça lotada e gritar no meio da rua. Fazer o tempo parar para que, quem sabe, ela encontrasse outra vez um espaço do tamanho dela, sair dali sem ninguém perceber. Ou então poder fingir ser outra pessoa, dar uma de louca, deitar no meio da grama, tirar a roupa ou ser invisível. Já que não de encaixava ali mesmo, por que não ser realmente excêntrico? Mas a garota é contida.
Conversou com as pessoas, obedeceu quando disseram para ela ficar. Bebeu quando disseram que era para beber e saiu quando disseram que era para sair.
Infelizmente nada daquilo fez sentido. Ela foi dormir.
Domingo veio. Outro dia azul na capital cinzenta. Surgiu o convite para o samba. Como antes, ela foi onde disseram que ela deveria ir. Dessa vez não bebeu quando disseram para beber. Não dançou quando disseram que era para dançar.
Dançou apenas quando ela quis. Comeu e bebeu apenas o que ela quis e quando ela quis. E o mundo aos poucos voltou a fazer sentido. Aqueles rostos tão familiares e tão de sempre fizeram o mundo achar mais uma vez um espaço onde ela coubesse, onde as coisas tivessem o peso real e o sapato tivesse o tamanho certo.
Um sorriso de criança pela manhã, o passeio pela rua, o papo no sofá, a canga na grama no fim da tarde, a bolinha de sabão, a cerveja não tão gelada seguida pela cerveja bem gelada e as conversas com aquelas que faziam falta. O fim de semana acabou e a sensação de desencaixe foi-se embora. A menina se deu conta que ela não gosta de gente, mas gosta sim da sua gente. Da gente de tempos antigos e da gente de novos tempos. Daquela gente que faz o mundo dela ser do jeitinho que é.
terça-feira, 2 de novembro de 2010
Feita de Pano
- Sabe de uma coisa? Você parece aquela personagem do Sítio...
- Qual? A Narizinho? Me diziam isso quando eu era criança.
- Não... Não é a Narizinho. Está mais para aquela boneca, feita de pano.
- Emília! É mesmo? Por quê?
- Acho que bonecas de pano não têm coração. Você faz bem o papel.
- Até faz sentido. Larguei mão de ser narizinho para ser boneca de pano e deixei de ter coração.
- E por que isso?
- Coração dói, incomoda, aperta. Preferi trocar por um fígado. Na atual conjuntura, era o melhor que poderia ter feito.
- Mas e um coração não faz falta?
- Não tem feito não, sabia? Quando fizer, procuro por algum no mercado negro. Sempre tem um perdido por aí, precisando de uma casa nova. Alguém a procura de um fígado a mais. Faço uma nova troca quando precisar...
- E me diz... Onde mesmo que você trocou o seu?
- Qual? A Narizinho? Me diziam isso quando eu era criança.
- Não... Não é a Narizinho. Está mais para aquela boneca, feita de pano.
- Emília! É mesmo? Por quê?
- Acho que bonecas de pano não têm coração. Você faz bem o papel.
- Até faz sentido. Larguei mão de ser narizinho para ser boneca de pano e deixei de ter coração.
- E por que isso?
- Coração dói, incomoda, aperta. Preferi trocar por um fígado. Na atual conjuntura, era o melhor que poderia ter feito.
- Mas e um coração não faz falta?
- Não tem feito não, sabia? Quando fizer, procuro por algum no mercado negro. Sempre tem um perdido por aí, precisando de uma casa nova. Alguém a procura de um fígado a mais. Faço uma nova troca quando precisar...
- E me diz... Onde mesmo que você trocou o seu?
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