Era outono, quase inverno.
De repente ela estava lá, com o carro parado na beira da praia. Alguns anos antes era freqüente o carro parado na beira da praia. Seus irmãos costumavam ir surfar. Os seus pais ficavam observando os dois no mar e ela costumava sentar na pedra, olhar pro nada.
Mas hoje ela estava sozinha. Ela descalça na areia fria, a praia vazia e o mar logo em frente. O sapato de salto que usara durante a noite ficara no carro. Usava um casaco preto por cima de um vestido florido tomara que caia.
Ela quis sentir aquela brisa fria que só existe na beira do mar em dias de outono, quase inverno. Aquela brisa que acaricia a pele e embaraça os cabelos. Queria pisar no chão frio, sentir a areia entre os dedos.
O cheiro do mar no frio é outro. É diferente do verão. No verão vem um cheiro de gente, protetor solar, criança. Já no frio, outono quase inverno, é um cheiro só de mar. Fresco e salgado.
E depois de uma noite cheia de gente, tudo o que ela queria era esse cheiro fresco de liberdade. Solidão. Engana-se aquele que pensa que a solidão é ruim. “Solidão só é ruim para quem não sabe apreciá-la”, pensou.
Sentou ali de frente pro mar. Maquiagem já borrada, uma lata de cerveja já meio quente na mão e o dia começando a nascer.
Tomou seus últimos goles de cerveja, andou até a beira do mar, molhou os pés e respirou bem fundo. E por um instante ela desejou dividir esse momento com alguém. Sentiu-se estranha. Pela primeira vez em anos, sentiu-se sozinha.
Virou as costas entrou no carro e foi embora.
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terça-feira, 3 de maio de 2011
terça-feira, 1 de setembro de 2009
Sobre medo e solidão
E no começo da noite, eu coloco o filme no dvd, aquele que aluguei no fim de semana, mas não quis assistir. Em seguida desço até a cozinha para pegar a cerveja que comprei no fim de semana, mas também não quis beber. Volto para a sala, ajeito as configurações de legenda e começo o filme. Mas de repente me dá uma vontade de sentar no balcão perto da janela, como fazia quando era criança e tinha medo de ficar sozinha. Parecia que as pessoas na rua eram tão sozinhas como eu e, de certa forma, me faziam companhia. Hoje quis olhar pela janela talvez para tentar descobrir o que sentia ou talvez só para lembrar um pouco da infância e me deixar levar pelo saudosismo.
A verdade é que tenho passado vários momentos em que só a minha companhia me basta. Um bom filme e uma cerveja gelada e é como se eu estivesse completa. E olho pela janela e as pessoas na rua sozinhas ainda me fazem uma certa companhia, porém distante. E nesta distância de muito além de dezesseis andares aquele medo que eu tinha quando era criança fica tão claro, mas ao mesmo tempo tão diferente. O medo da solidão da infância dá lugar ao medo de me sentir tão plena sem ninguém ao meu lado. Um medo de talvez não saber mais ter uma companhia para dividir o filme e a cerveja. Aquele medo de alguns anos não é mais um medo da solidão. E sim de gostar de mais dela.
A verdade é que tenho passado vários momentos em que só a minha companhia me basta. Um bom filme e uma cerveja gelada e é como se eu estivesse completa. E olho pela janela e as pessoas na rua sozinhas ainda me fazem uma certa companhia, porém distante. E nesta distância de muito além de dezesseis andares aquele medo que eu tinha quando era criança fica tão claro, mas ao mesmo tempo tão diferente. O medo da solidão da infância dá lugar ao medo de me sentir tão plena sem ninguém ao meu lado. Um medo de talvez não saber mais ter uma companhia para dividir o filme e a cerveja. Aquele medo de alguns anos não é mais um medo da solidão. E sim de gostar de mais dela.
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