terça-feira, 6 de julho de 2010

Mudança

- É você...
- Sim... desculpa, vim buscar aquele quadro roxo que você pintou pra mim.
- Ah sim... Está ali em cima do sofá. Amanhã eu me mudo.
- Você não ia me falar nada?
- Não, melhor assim.
- Bem, se você acha.
- Ia mandar pelo correio algumas coisas que ficaram. Sem remetente.
- Você não vai me dizer pra onde vai?
- Não. Quer plástico bolha para embalar o quadro?
- Acho que é melhor.
- Tá ali no canto. Aproveita e pega a caixa que tem seu nome em cima. Pode levar.
- Você ia se desfazer de tudo isso?
- Não. Já falei que ia mandar o correio entregar.
- O quadro não...
- O quadro não.
- O que você ia fazer?
- Mandar pra galeria. Quem sabe alguém iria querer. Entenderia.
- O quadro é meu. Você não tem esse direito.
- Achei que você não o queria mais. Tem bolo de laranja na cozinha... caso você queira levar um pedaço.
- Obrigado.
- Escuta... vou apagar seu telefone e seu e-mail...
- Não adianta nada! Você não vai esquecer de qualquer forma.
- Vai saber! Quem sabe se eu mentalizar bem forte antes de dormir minha memória apague...
- Mas por quê?
- Porque sim...
- Não dá pra entender...
- Dá sim... eu só não quero mais te achar.
- Mas por quê?
- Porque você me acha, se você quiser...

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Texto escrito em novembro de 2009

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Sobre raiva e intensidade

Falar sobre o que sinto nunca foi meu forte. Desde criança, quando alguma coisa me incomodava, eu fechava a porta do quarto, deixava o som alto e tentava resolver os problemas por minha conta.

Depois de um tempo, lá pelos 14 anos, comecei a escrever. As palavras se tornaram o melhor ombro amigo para as horas de tristeza, raiva ou confusão. Talvez seja porque sempre detestei que quem quer que fosse me visse triste ou sequer derramar uma lágrima. Um orgulho besta, mas que cultivo.

Dia desses, exercitando meu hábito de ir ao cinema sozinha, com tanta coisa no peito necessitando ser escrita, rabiscada e lida, precisei passar na livraria e comprar um caderno. A sala vazia e escura do cinema se tornou uma espécie de confessionário. Precisava contar, só para quem quisesse ouvir, que menti.

Menti quando disse que perdi minha intensidade. Continuo a mesma idiota impulsiva. Que raiva me dá descobrir que só obedeço à razão em pouquíssimos casos. Pior ainda é ter certeza do quanto incomoda gostar de alguém. E mais uma vez eu sinto raiva por saber que hoje é necessário – mais uma vez – deixar de gostar.

Quis gritar pro mundo que te quis muito e hoje quero gritar pro mundo que tenho raiva. Raiva de mim mesma por mais uma vez ter sido intensa de mais, por mais uma vez ter me deixado levar, por mais uma vez ter feito tudo que quis... E a raiva me faz enxergar que a intensidade sempre esteve aqui, pronta para pular para o mundo mais uma vez.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Luz antiga

Eu só queria que você cuidasse
um pouco mais de mim
como eu cuido de você
cuidar é simplesmente
olhar pro mundo que você não vê
Pra medir o amor não existe cálculo
1+1 pode não ser 2
Futuro é linda paisagem
desejo que não é sonho é mera ilusão
Se não sabe
se afasta de mim
mas se ainda cabe
me abrace, enfim
Só ligue se tiver vontade
só venha se quiser me ver
Mentir é pura vaidade
de quem precisa se esconder
Será que eu vejo apenas o que você não vê?
eu não entendo como você não consegue perceber?
que eu não sei mais,
eu não sei mais, eu não sei
O sangue é o rio que irriga a carne
e a alma é a terra de um morro
é luz antiga o fim da tarde
dessa saudade sem socorro
Se não sabe
se afaste de mim
mas antes que seja tarde
nos salve do fim

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Nando Reis

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Enlouqueci

Confesso que enlouqueci. De repente me tornei uma daquelas pessoas inseguras, que não sabe muito bem o que fazer dos próximos dias, meses e anos. Uma pessoa que a cada dia parece ter uma personalidade distinta e cada uma com seus conflitos distintos.

Me encontro em alguns momentos como uma menina de 15 anos que começa a descobrir a vida e de repente descobre o que é gostar de alguém. Que sente medo de dizer tudo o que pensa e quer mais que tudo se jogar em tudo o que há por vir. Outros momentos pareço com uma mulher de 50 anos que, de tanto viver e se apaixonar, morre de medo de se machucar mais uma vez. E às vezes me encontro como a mulher de 23 anos que sente a saudade daquele ombro amigo para derramar todos os conflitos, beber todas as cervejas e dançar até o pé doer.

Toda essa insanidade misturada aos conflitos (que são capazes de conflitar entre eles mesmos) tem uma razão. Há uma vontade de gritar pro mundo que eu estou diferente, de dizer para quem quiser ouvir que eu abrandei minha intensidade, me tornei mais racional. Que não sei mais agir como se existisse uma bomba relógio no lugar de um coração. Mas por ter mudado, não consigo mais gritar por aí.

Talvez insana eu fosse antes e este momento de loucura seja apenas uma fase de adaptação de uma nova pessoa. Ou talvez eu tenha me perdido em algum momento entre as coisas que ficaram por dizer e àquelas que eu disse. E confesso que hoje não há mais coragem de dizer tudo o que está na garganta. E até retornar à sanidade (ou àquela insanidade anterior) eu guardo meus sentimentos em algum lugar entre o peito e a boca, esperando, quem sabe, a hora certa de dizer.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Sobre os domingos

Domingo é o dia em que a inércia parece ser mais forte que qualquer outra coisa. Dia em que o sofá e aquela coberta são tão atraentes quanto a bacia de pipoca, o filme no DVD ou o livro a ser terminado. Dia em que a preguiça impera e que nos faz lembrar que em seguida vem a segunda-feira. O fim de semana acaba e tudo começará outra vez quando abrirmos os olhos na manhã seguinte.

Domingo é o dia em que algumas famílias se reúnem e pedem uma pizza naquele restaurante do bairro. A avó e seu tricô no sofá, a criança correndo pela casa e os irmãos conversando sobre o fim de semana. Às vezes um vinho, outras uma cerveja.

Domingo também é o dia em que os solteiros acabam se obrigando a sair de casa. Pois é um daqueles dias que a solidão aparece e cutuca de leve. E, por essa história da solidão gostar de aparecer nos domingos, é que alguns solteiros se deixam levar por boas companhias. E na onda de se deixar levar pelas boas companhias é que os solteiros deixam de ser solteiros.


Domingo dá preguiça, domingo engorda, domingo anima, domingo aproxima e domingo apaixona.


Definitivamente, hoje eu gosto de domingos!

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Os malditos cortinhos feitos com papel

Sabe aquele corte de papel que a gente faz na pele, quando está distraído, que parece que nunca mais cura? Na hora a gente xinga e manda tudo a merda. Depois, quando você acha que o maldito do cortinho fechou, você vai lavar a louça ou passar um creme na mão e sente a porra do machucado incomodar de volta. É! Mas depois de uns dias (você nem nota) o chato do cortinho ardido fecha e a pele fica boa e pronta pra mais um daqueles machucadinhos malditos.

Pensando nisso que eu me dei conta do quão foda é esse tal de Tempo: ele fecha até a porra do cortinho ardido feito com papel. É clichê! Eu sei! E sei que isso tudo pode ser inclusive previsível, mas é muito engraçado como só de vez em quando nos damos conta de que tudo é cíclico. E esquecemos das coisas que o Tempo é capaz de fazer. Ele muda conceitos, transforma amizades, amorna amores, cura tristezas e ainda consegue colocar novidades bem na frente da cara da gente. Quem pisa na bola somos nós! O Tempo faz é muito bem o trabalho dele!

E o mais engraçado disso tudo é perceber o quanto é besta se preocupar de mais. E que, quando o assunto é dúvida, drama ou aquela necessidade de coisas novas na vida, o negócio é deixar na mão desse tal de Tempo. Ao que me parece, ele sempre acha uma solução!

terça-feira, 2 de março de 2010

Talvez uma última carta



Já faz algum que você saiu. Mas a sua mala ficou ali no meio da sala. Não consegui tirá-la dali por enquanto. Até pensei em atear fogo ou tacar pela janela.


Nesse meio tempo, da sua partida e desta carta, nada em particular aconteceu. As coisas continuam basicamente as mesmas. Muito trabalho, algumas festas no meio do caminho. Filmes e cafés pela cidade e amigos fazem visitas de vez em quando. Como costumavam quando você ainda estava por aqui. Todos, muito educadamente, não perguntam o porquê da mala.

Mas preciso lhe contar que uma coisa mudou. Consegui abrir as janelas.

Primeiro foi a da sala. Pude sentir o sol esquentando o sofá no fim da tarde enquanto eu assistia um episódio de uma série qualquer. Me joguei naquele restinho de sol do dia e fechei os olhos só para sentir a luz aquecer cada milímetro do meu rosto.

Depois foi a janela do quarto. Fazia tempo que não via o céu ainda escuro de dia nascendo. Deixei aquela brisa fria de sete horas da manhã entrar e gelar todos os meus dedos do pé.

A última janela já não foi tão fácil. Levou um pouco mais de tempo. Aquela da área de serviço. A que você mais gostava. Aquela onde tivemos uma das nossas últimas conversas. Bebíamos cerveja e deixamos pela metade no chão da sala.

E acho o único motivo da sua mala ainda estar ali, são as pequenas lembranças. Como a da cerveja deixada no chão e dos comentários que ninguém nunca ouviu. Nossas lembranças. Minhas lembranças. E confesso que pensar nas bobagens que nunca aconteceram, hoje me faz bem.

E por isso eu quebro o meu jejum de letras.

Preciso lhe agradecer.

Não estranhe, pois ainda tenho todo o meu juízo no lugar certo.

Mas preciso sim lhe agradecer. Por me lembrar que eu ainda sei como gostar. Coisa que eu achei ter esquecido há algum tempo.

Obrigada.

E fique tranqüilo. Em breve eu mando a sua mala.